Convite ao Pensar: O filho do vaqueiro venceu, no primeiro turno, o filho da mais alta burguesia reacionária da Bahia, e com o apoio de um retirante nordestino

A eleição baiana de 2026 foi um recado, e dos mais claros. A diferença de mais de um milhão de votos entre Jerônimo Rodrigues e ACM Neto não foi um acidente, nem obra do acaso ou de marketing. Foi a Bahia dizendo quem ela é. E, principalmente, quem ela não é.

Jerônimo venceu em 376 cidades, com o apoio de um retirante nordestino chamado Luiz Inácio Lula da Silva. ACM Neto venceu apenas em 41. Isso não é somente um placar: é um mapa político. A Bahia votou com o interior, com a roça, com a memória, com a identidade. Votou com a história de um homem nascido em Palmeirinha, distrito de Aiquara, filho de um vaqueiro e de uma costureira, alguém que não precisa “parecer” baiano, afrodescendente ou se vestir de vaqueiro em momentos festivos, porque ele é a Bahia profunda e originária.

A alta burguesa reacionária, acostumada a acreditar que Salvador decide tudo, recebeu um choque de realidade. A Bahia não é só a capital. A Bahia é o Médio Sudoeste, o Sudoeste, o Sertão, o Recôncavo, o Extremo Sul. É o território que ACM Neto nunca conseguiu decifrar, e muito menos compreender.

A eleição mostrou que não adianta ter estrutura, mídia, projeção nacional ou discurso técnico se você não tem pertencimento. Política não é só gestão: é identidade, é enraizamento. E Jerônimo, goste-se ou não, representa algo que ACM Neto nunca representou: a Bahia dos pequenos produtores rurais, de quem vive em pequenas glebas de terra, de quem vive no interior mais profundo, de quem se reconhece no filho do vaqueiro e da costureira.

A vitória no primeiro turno não foi apenas uma vitória. Foi uma afirmação histórica: a Bahia vota com quem a entende, não com quem tenta administrá-la à distância, pelo WhatsApp, reclamando do sol quente quando sai do ar-condicionado da mansão, do jatinho ou do helicóptero.

Entender esse processo é essencial para qualquer análise séria sobre o presente e o futuro da Bahia, e do Brasil. Que assim também seja nos interiores. Que assim seja em Itarantim. Que os filhos dos vaqueiros, dos pedreiros, dos carpinteiros, dos funileiros, dos lavradores e de tantos outros vençam nas urnas os filhos da burguesia reacionária que acreditam, e até dizem ou pensam, como ACM Neto: “VOVÔ ME PROMETEU”.


Comentários