CONVITE AO PENSAR: Quando a autonomia vira epifania política: O “Itarantim Pode Mais” descobre que pode mesmo
De tempos em tempos, a política de Itarantim nos presenteia com momentos quase metafísicos — aqueles em que um grupo político, após meses orbitando em torno de outra liderança, subitamente percebe que também existe politicamente. Foi mais ou menos isso que aconteceu quando o grupo Itarantim Pode Mais anunciou apoio ao ex‑prefeito de Araci, Silva Neto, como pré‑candidato a deputado estadual em 2026.
O movimento, claro, foi recebido como se fosse uma grande ruptura tectônica no tabuleiro político local. Mas, convenhamos: se Nicolau Maquiavel (1469–1527) estivesse vivo, provavelmente diria apenas “finalmente”. E o também italiano Noberto Bobbio (1909–2004), com sua paciência acadêmica, talvez acrescentasse: “autonomia política não é milagre, é escolha”.
A súbita descoberta da autonomia política
Ao apoiar Silva Neto, nome que já mereceria outra análise política, o “Itarantim Pode Mais” parece ter vivido uma espécie de iluminação aristotélica: percebeu que um grupo político só se torna protagonista quando escolhe seus próprios caminhos.
Até então, o grupo seguia fielmente os pré‑candidatos indicados por Dudu dos Tutas, numa relação quase pedagógica: Dudu “ditava”, o grupo “copiava”, e os votos iam todos para o mesmo extrato político.
Mas eis que, num lampejo de epifania política, Joelan decide que talvez seja hora de medir o próprio peso eleitoral. Afinal, como diria Immanuel Kant (1724–1804, “a menoridade é confortável, mas não leva ninguém ao poder”.
Dudu dos Tutas e a arte de continuar sendo Dudu
Enquanto isso, o vereador e presidente da Câmara segue firme em sua própria trilha política, apoiando Andréia Castro para deputada estadual. Nada mais natural: se o principal aliado, até aqui, resolveu testar suas próprias asas, Dudu não vai ficar parado esperando o vento.
O cenário, antes de alinhamento automático, agora se transforma em algo mais sofisticado: duas lideranças de oposição disputando quem realmente tem capital político. É quase um experimento hobbesiano (Thomas Hobbes 1588-1679), não de guerra de todos contra todos, mas de “quem mobiliza mais, quem convence mais, quem conquista mais”.
Cooperação competitiva: o novo desafio local
Curiosamente, apesar da ruptura no nível estadual, ambos “seguem unidos” em torno do deputado federal Antônio Brito. É a chamada cooperação competitiva: brigam num andar, apertam as mãos no outro.
E, claro, cada um tentará provar que foi responsável por mais votos para Brito. A matemática política é simples: o voto é um só, mas o mérito tem dois donos.
Representatividade: agora vai (ou não)
Ao escolher um pré‑candidato próprio, o “Itarantim Pode Mais” envia um recado à sua base: “Queremos voz própria, não eco.”
É um gesto importante. Representatividade política, afinal, não se terceiriza. Mas também é um teste: será que a base acompanha a nova dinâmica ou prefere a segurança do antigo guarda‑chuva?
Quando uma peça se move, o tabuleiro inteiro se ajusta
A decisão de apoiar Silva Neto inevitavelmente provoca reacomodações. A política é assim: uma peça se move, e todas as outras fingem que não perceberam, mas se ajustam.
As urnas dirão se o grupo conquistará autonomia ou apenas trocará uma dependência por outra. Mas, politicamente falando, a ruptura, mesmo parcial, já é relevante: o grupo rompe com a lógica da tutela e inaugura uma fase em que o peso de cada liderança será medido com mais precisão nas urnas.
Itarantim, laboratório vivo da teoria política
A política local, tantas vezes subestimada, é justamente onde os grandes conceitos - poder, autonomia, representação, disputa simbólica - se manifestam com mais nitidez.
E Itarantim, mais uma vez, mostra que não precisa de grandes crises nacionais para produzir seus próprios dramas filosófico‑políticos. Basta um rompimento de apoio para que todo o tabuleiro se reorganize - e para que cada liderança descubra, finalmente, a importância de abandonar certa “aba política” e conquistar o próprio guarda‑chuva político.
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