Convite ao Pensar: O VEREADOR da base que preferiu aderir à OPOSIÇÃO a apoiar o candidato do prefeito
A
eleição da Mesa Diretora da Câmara de Vereadores de Itarantim, realizada na
última terça-feira (20/10), produziu fatos políticos que ainda renderão muitas conversas
e análises políticas.
Mas,
entre todos eles, um episódio merece atenção especial porque revela algo para
além da disputa pelo comando da Câmara: revela a forma como algumas mentes políticas
enxergam o poder e, principalmente, para quem esse poder deve servir.
O fato
político principal envolve a participação do vereador Toninho na chapa de
oposição, ato que gerou mal-estar na base governista por uma razão simples: até
então ele fazia parte do grupo político que dava sustentação ao governo
municipal. Mais do que isso, integra a Mesa Diretora eleita com apoio do
prefeito e chegou a receber votos de aliados que, em outras circunstâncias,
talvez não votassem nele, mas votaram porque aquela era a chapa confirmada pelo
prefeito.
Até
aí, a política segue seu curso. O problema surge quando a coerência tira
férias.
A
presença de Toninho na chapa oposicionista não foi um detalhe. Foi precisamente
a participação que tornou possível a formação daquela composição. Sem ele,
dificilmente o cenário teria sido o mesmo. Por isso, quando os três vereadores
de oposição deixaram o plenário em protesto contra o processo de eleição, alguns esperavam que ele acompanhasse seus “novos aliados”.
Mas
não foi o que aconteceu.
Toninho
permaneceu na sessão, no posto que a base governista o elegeu a pedido do
prefeito.
Talvez
porque estivesse exercitando uma nova modalidade política: ser governo e
oposição ao mesmo tempo. Uma nova espécie de empreendedorismo político onde o VEREADOR
investe nos dois campos políticos para tentar "sabotar o governo" e garantir que
um periférico não chegue ao poder.
A
surpresa não terminou aí.
Concluída
a votação, foram contabilizados oito votos para a chapa vencedora. Entre eles o
voto de Toninho. Ou seja, ele participou da articulação que criou o enredo,
ajudou a fortalecer a chapa oposicionista e, no momento decisivo, acabou votando
na chapa governista, quando o mais coerente seria a abstenção.
Um
verdadeiro espetáculo de malabarismo político.
Se
essa nova modalidade política fosse um esporte olímpico, certamente não
estaríamos falando de medalha.
Mas
reduzir essa discussão à figura desse vereador seria um erro. Toninho é apenas
a parte visível de um espectro político mais profundo, apenas aponta do iceberg.
A parte submersa é ainda mais preocupante para o governo e ficará mais visível até
2028. O que está em debate não é apenas uma movimentação isolada, mas um modus
operandi que se repete a cada quatro ou oito anos.
Há
quem possa desafiar o governo, flertar com a oposição e continuar sendo tratado
como aliado. Há quem faça muito menos e seja imediatamente colocado na condição
de adversário político e até de “persona non grata”.
A
pergunta que surge é inevitável: o mesmo comportamento político geraria a mesma
consequência se fosse praticado por alguém sem certo privilégio político, sem o
“prestígio” interno ou sem padrinhos poderosos?
Ou,
indo mais longe, se o protagonista desse fato fosse um vereador de origem
humilde, vindo das periferias e sem o respaldo das “eminências pardas” do
poder, a reação seria a mesma?
A
resposta talvez esteja justamente no silêncio que cerca determinadas atitudes e
na rapidez com que outros são condenados.
Esse
pequena horda política, presente no governo, tem uma longa tradição de combater
privilégios em discursos e preservá-los na prática. Em alguns ambientes, a
regra parece ser simples: para a burguesia reacionária e seus filhos, compreensão; para os demais, rigor absoluto.
É
o famoso princípio dos "dois pesos e duas medidas", tão antigo quanto
eficiente. Funciona porque dispensa explicações. Basta escolher quem pode tentar
sabotar o governo e quem não pode.
O
episódio da eleição da Câmara foi apenas um ensaio, a ponta do iceberg político.
Um pequeno capítulo de uma disputa maior que tende a ganhar forma até 2028.
Porque, no fundo, a discussão não parece ser apenas sobre cargos na Mesa
Diretora. Parece ser sobre quem pode ocupar determinados espaços de poder e
quem deve apenas assisti-los à distância.
E
é justamente aí que mora o cerne da questão política.
As
escolhas políticas sempre têm consequências. Algumas fortalecem governos.
Outras fortalecem projetos pessoais de uma pequena casta reacionária. Algumas
aproximam a política do povo. Outras revelam o desconforto de certos grupos
quando o poder ameaça mudar de endereço, mudar em favor dos periféricos. Em favor
dos filhos dos vaqueiros, dos pedreiros e dos netos dos carpinteiros.
Por
isso, mais do que discutir nomes, vale refletir sobre coerência política.
Em democracia, o que destrói a confiança não é o erro nem a tentativa de sabotagem. É a percepção de que existe rigor para uns e exceções para outros.



Parabéns ao Escritor do Alerta Itarantim pela abordagem crítica e pela contribuição ao debate público! O jornalismo de opinião cumpre um papel importante quando provoca reflexão, questiona contradições e estimula a cidadania. Em uma democracia, o debate não deve incomodar por ser crítico, mas ser valorizado justamente por nos fazer pensar.
ResponderExcluirPorque, no fim das contas, a política precisa de menos conveniência e mais coerência, menos privilégios e mais compromisso com o povo.
Este episódio em Itarantim expõe uma ferida histórica da política brasileira: a perpetuação do coronelismo e do elitismo disfarçados de representatividade.
ResponderExcluirÉ estarrecedor perceber como, em pleno século XXI, ainda persiste na mente de certos grupos oligárquicos a ideia absurda de que o dinheiro e o "berço" valem mais do que o caráter, a capacidade técnica e o conhecimento. O texto deixa claro que há uma casta política habituada a encarar o poder público não como um instrumento de transformação social para o povo, mas como um patrimônio privado e hereditário.
O Preconceito com as Origens Populares
Quando o texto provoca sobre o incômodo que causa a ascensão de lideranças "das periferias, filhos de vaqueiros, pedreiros e netos de carpinteiros", ele escancara o preconceito de classe que rege os bastidores do poder. Para essa elite reacionária:
Quem nasce em berço de ouro pode flertar com a oposição, sabotar projetos e cometer incongruências graves sem sofrer consequências; recebe complacência e perdão automático.
Quem vem do povo precisa provar sua legitimidade a todo instante, é submetido ao rigor absoluto e ao julgamento implacável ao menor sinal de discordância.
Essa política de "dois pesos e duas medidas" serve justamente para manter o status quo e desencorajar que pessoas de origem humilde ocupem espaços de decisão.
O Repúdio à Subestimação do Eleitor
O aspecto mais lamentável de toda essa dinâmica é o desrespeito com a população de menor poder aquisitivo. É a maioria trabalhadora que movimenta o município, paga impostos e confere legitimidade pelo voto a esses representantes. No entanto, parte dessa classe política enxerga o eleitor de baixa renda como mero espectador passivo — alguém que deve apenas assistir à distância enquanto "os mesmos de sempre" loteiam os cargos públicos.
Subestimar a inteligência do povo é um erro grave. Ter pouco dinheiro não significa ter falta de discernimento, caráter ou visão crítica. Quando representantes eleitos usam a confiança popular para fazer "jogos duplos" ou articular manobras em prol de projetos pessoais de poder, eles não desrespeitam apenas o rito democrático: desrespeitam a história e a dignidade de cada cidadão que acreditou na mudança.
A verdadeira política só cumpre seu papel quando o conhecimento, a ética e a representatividade popular sobrepõem-se ao poder econômico e ao privilégio de apadrinhamento. Que episódios como esse sirvam de alerta e despertem na comunidade a consciência de que o espaço de poder pertence ao povo — não importa a sua origem.