O cinema brasileiro atravessa um momento de renovado prestígio, marcado por uma confluência rara entre criação artística, reconstrução histórica e projeção mundial. Em meio a um cenário historicamente permeado por instabilidades políticas, descontinuidade de políticas culturais e disputas pela narrativa pública, duas obras recentes – ‘Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto’ - recolocam o país no centro do debate cultural contemporâneo.
A indicação de O Agente Secreto a quatro categorias do Oscar 2026 não representa apenas um feito técnico: simboliza, como diria o pensador Walter Benjamin (1892-1940), um momento em que a arte rompe o silêncio imposto pela história e volta a reivindicar seu lugar no mundo.
Baseado em fatos, Ainda Estou Aqui revisita uma das feridas mais profundas da história brasileira: a violência regida pelo Estado durante a ditadura militar. A obra não se limita a narrar um episódio traumático, ela devolve humanidade às vítimas e convoca o espectador a enfrentar o passado - um gesto que ecoa a reflexão da filósofa Hannah Arendt (1906-1975) sobre a necessidade de iluminar as zonas sombrias da história para impedir sua repetição.
Em um país onde a memória é frequentemente disputada, o filme se torna um ato político e ético. O filósofo Paul Ricoeur (1913-2005), ao discutir a memória e o esquecimento, afirmou que recordar é também um dever moral. Ainda Estou Aqui cumpre esse papel ao transformar a tela em espaço de resistência contra o apagamento histórico.
O impacto do filme ultrapassa o campo estético. Ele reacende debates sobre direitos humanos, justiça e democracia - temas que, embora pertençam ao passado, continuam estruturando o presente. Trata-se de um cinema que provoca, inquieta e reafirma, como defendia o filósofo e sociólogo Theodor Adorno (1903-1969), que a arte autêntica é aquela capaz de tensionar a realidade e revelar suas contradições.
Se Ainda Estou Aqui representa a força da memória, O Agente Secreto simboliza a capacidade do cinema brasileiro de dialogar com questões universais. Suas quatro indicações ao Oscar evidenciam que o país produz narrativas complexas, tecnicamente refinadas e capazes de atravessar fronteiras culturais.
A presença do filme na principal premiação do cinema mundial rompe com estereótipos historicamente associados ao Brasil. Ele demonstra que a produção nacional pode competir em igualdade com grandes obras internacionais sem renunciar à própria identidade, uma síntese que remete à ideia de Walter Benjamin de que a arte ganha força quando preserva sua singularidade ao mesmo tempo em que se abre ao mundo.
O êxito dessas produções não é fruto do acaso. Ele reflete a retomada de políticas públicas, o fortalecimento de editais e a reativação de mecanismos de fomento que haviam sido fragilizados. Após um período de retração, o audiovisual brasileiro volta a respirar e, como diria o pensador Friedrich Nietzsche (1844-1900), respira com a vitalidade de quem se recusa a sucumbir ao niilismo.
O público também desempenha papel decisivo. A recepção calorosa, os debates nas redes sociais e o interesse crescente por narrativas nacionais revelam que existe demanda por histórias brasileiras contadas por brasileiros. O cinema nacional não precisa imitar Hollywood para ser relevante, sua força reside justamente na capacidade de olhar para si mesmo e transformar essa introspecção em linguagem universal.
O atual momento do cinema brasileiro não é apenas promissor, é um marco de inflexão. Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto demonstram que o país é capaz de produzir obras que emocionam, questionam e conquistam o mundo. São filmes que reafirmam a potência criativa do Brasil e mostram que, apesar das crises, a arte permanece como um dos espaços mais vigorosos de resistência, reflexão e reinvenção.
Se o Oscar consagrará ou não essa trajetória, “pouco importa”. O reconhecimento já está dado. O cinema nacional vive um renascimento profundo, político e necessário. Um renascimento que, como ensina a filosofia, só é possível quando a sociedade decide enfrentar seu passado, compreender seu presente e imaginar novos futuros.
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