CONVITE AO PENSAR: Mineração irregular em Itarantim, quando o silêncio vira risco e a participação vira dever
O debate realizado na Câmara
Municipal de Itarantim na última terça-feira (14) expôs uma realidade que há
tempos vem sendo denunciada pelas comunidades rurais: atividades de mineração
avançam no municipal sem transparência, sem diálogo e, segundo moradores e
vereadores, em desacordo com a legislação local. A sessão foi um alerta urgente
sobre o futuro ambiental, social e econômico do município.
A força da voz do campo
Quando lideranças rurais afirmam
que há mais de dois anos empresas de pesquisa mineral circulam por regiões como
Corgão, Palmeiras, Água Vermelha, Mandin e Jundiá, entre outras, não estão
apenas relatando fatos. Estão expressando medo. Relatam que há moradores
que “não dormem mais preocupados com o que pode acontecer daqui a dois ou três
anos”. Essa insegurança não surge por acaso: ela nasce quando a população
percebe que decisões sobre seu lugar de origem e pertencimento estão sendo “ocupadas”
sem sua permissão.
E quando estradas são abertas em
áreas de serra, córregos são barrados e nascentes ficam ameaçadas, não se trata
de mera “atividade de pesquisa”. Trata-se de impacto ambiental concreto,
visível e, em muitos casos, potencialmente irreversível.
A lei existe e precisa ser
cumprida
Em agosto de 2025, Itarantim deu
um passo importante ao sancionar uma lei que reconhece suas serras como Monumentos
Naturais e Patrimônio Paisagístico. A lei, aprovada por unanimidade pela
Câmara e sancionada pelo prefeito Fábio Gusmão, teve origem em um Projeto de
Lei de Iniciativa Popular, o que reforça seu caráter democrático e
participativo.
A legislação declara como
patrimônio paisagístico e turístico diversas formações montanhosas, entre elas:
Mandin I e II, Córrego do Nado, Água Vermelha, Três Pontas, Lôdo, Gameleira,
Palmeiras, Jundiá, Pau Sangue, Córrego D’Água, Água Preta, Meriqui, Rancho
Queimado, Feliciço, Serra Azul e Goia.
Associações rurais e vereadores
foram firmes ao cobrar o cumprimento da Lei Municipal nº 010/2025, que
delimita áreas onde a mineração é proibida. Trata-se de uma lei construída pela
comunidade, debatida e aprovada democraticamente, e que deve ser tratada como
instrumento de proteção coletiva.
A fala de um representante do
CEAS durante a sessão reforçou um ponto essencial: mesmo que a Agência
Nacional de Mineração (ANM) conceda registros de pesquisa, isso não autoriza o
descumprimento da legislação municipal. O município possui competência
constitucional para legislar sobre o uso e ocupação do solo. Esse é um
princípio federativo, não uma interpretação.
O que diz a legislação federal
Segundo a legislação federal brasileira e o entendimento consolidado do Supremo Tribunal Federal (STF), o município não pode proibir genericamente a atividade de mineração em seu território, pois a competência para legislar sobre jazidas e minas é privativa da União (art. 22, inciso XII, da Constituição Federal), e os recursos minerais pertencem à União, inclusive os do subsolo.
No entanto, o município possui
competência para ordenar o uso do solo e proteger o meio ambiente
local, o que permite impor restrições ambientais e urbanísticas, desde que
tais restrições não inviabilizem, de forma absoluta, a atividade mineradora
autorizada pela ANM.
Cautela
jurídica e a responsabilidade política
Os vereadores presentes na sessão
demonstraram preocupação e apoio à população, mas também divergências. Alguns
defenderam a união dos poderes e da população para impedir danos ambientais e
sociais. Outros enfatizaram a necessidade de embasamento jurídico mais robusto.
O debate técnico é legítimo. Mas,
enquanto discussões se prolongam, máquinas continuam avançando sobre áreas
sensíveis e protegidas. A política não pode caminhar mais devagar que o
trator, já dizia um renomado ambientalista.
Audiência pública:
oportunidade para unir forças
A audiência marcada para o
próximo dia 29 será mais que um momento de formação e conscientização sobre o
que está por vir. Será um teste:
- para o poder público, que precisará
demonstrar disposição para ouvir e agir;
- para as comunidades, que já mostraram
coragem ao levar suas denúncias à Câmara e aos demais poderes;
- para as empresas, que terão a oportunidade
de explicar suas ações — se estiverem dispostas à transparência.
O que está em pauta
Não é apenas o solo. Não é apenas
a água. Não é apenas o presente.
O que está em questão é o direito de
Itarantim decidir seu próprio futuro. É o direito dos moradores de viverem sem
medo. É o respeito à lei construída pela própria população. É a preservação de
um território que não pode ser tratado como terra de ninguém.
A mineração, quando realizada de forma legal, transparente e sustentável, pode ser uma atividade econômica legítima. Mas quando avança sem diálogo, sem respeito e sem limites, deixa de representar desenvolvimento e passa a representar ameaça, MEDO.
Itarantim está diante de seu maior desafio. Ignorar o problema não fará com que ele desapareça, fará com que cresça. A hora de unir forças e agir é agora.
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