Convite ao Pensar: Duas oposições políticas em Itarantim, a "verdadeira" e a ...

O pensador Jean-Paul Sartre disse que a vida é um eterno equilíbrio entre escolhas e consequências. Na política, esse equilíbrio é ainda mais instável: às vezes, a escolha é sua, mas as consequências vêm de todos os lados, inclusive de onde você menos espera. Dito isso, a sessão da Câmara de Itarantim na terça-feira (9) foi um desses momentos em que o “destino” político resolveu promover um encontro revelador e irônico.

A oposição e a “oposição verdadeira”

Em abril, perguntei em um artigo quem realmente representava a oposição em Itarantim. Dois meses depois, a resposta começou a surgir, não por revelação divina, mas pelo microfone da tribuna da Câmara.

Ana Paula Dantas, com a diplomacia de quem parece saber que política também é habilidade com as palavras, afirmou que estava ali porque representava a oposição de Itarantim. Logo depois, o vereador Zeza, sempre econômico na diplomacia política, confirmou: a verdadeira oposição de Itarantim é a liderada por Ana Paula.

Pronto. Estava oficializado: existe uma “oposição verdadeira” em Itarantim. O que, claro, nos leva à pergunta inevitável, e a outra oposição seria o quê? Uma oposição genérica? Uma oposição em estágio probatório? Ou apenas uma oposição que ainda não recebeu o crachá das mãos da oposição “verdadeira”?

Miguel Arraes, convocado às pressas

Diante dos discursos e da demarcação de espaço político local, o presidente da Câmara, Dudu dos Tutas, recorreu ao perseguido político pela Ditadura Militar Miguel Arraes. Quando um político cita o extraordinário Arraes, é porque a situação já saiu do controle e ele busca certa autoridade histórica para reforçar o discurso.

Antes de juntar partidos, é preciso juntar o povo”, essa é a frase oficial de Arraes, que foi trocada a palavra partidos por políticos. Uma frase inteligente, forte e que funciona muito bem em discursos — especialmente quando as lideranças políticas não estão fazendo fila para se juntar a você.

Juntar o povo: missão épica ou missão impossível?

Se um político não conseguiu juntar lideranças políticas, conseguirá juntar o povo? Eis a pergunta que vale mais do que qualquer pesquisa eleitoral. Porque, se na política não existe acaso — e não existe mesmo — o afastamento de Zeza, Ana Paula, do grupo Itarantim Pode Mais, de vereadores e de outras lideranças não foi coincidência: foi estratégia. E estratégia, como aprendemos, costuma ser planejada com antecedência e executada com precisão cirúrgica.

Agora, Dudu precisa transformar a ausência de lideranças políticas em força. Mas o segundo capítulo dessa disputa ainda não começou e não será fácil: governo e oposição “verdadeira” disputarão voto a voto e, antes disso, certamente tentarão atrair — ou neutralizar — as principais lideranças que ainda caminham com Dudu. Afinal, cada bairro, rua, região rural e distrito tem suas lideranças que influenciam suas localidades. Política é assim: quando você perde aliados, descobre rapidamente que adversários têm excelente memória.

E se o improvável acontecer?

Mas a política tem um talento especial para surpreender quando a estratégia é malfadada ou não sai como planejada. E se, apesar de toda essa falta de lideranças políticas, Dudu conseguir “juntar o povo” e transformar isso em votação expressiva nas urnas? E se, por ironia da política, pelo querer do povo — e pelo fracasso estratégico dos adversários — ele ainda conquistar uma votação expressiva para seus deputados e reconquistar a presidência da Câmara?

Bem, aí muda tudo. E Itarantim terá um capítulo político digno de registro histórico, daqueles que analistas adoram revisitar para dizer: “Estava tudo ali, era só prestar atenção”.


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